Fanfiction
Ingrid Lara de Araújo Utzig
Fanfictions, escritas a partir de produtos culturais, são reinterpretações autorais que modificam e expandem o material-fonte. Formam comunidades de fãs, os fandoms, que compartilham e interagem em plataformas online. Surgem como resposta crítica ao consumo passivo, mas também são absorvidas pela indústria cultural, destacando-se na educação por explorar multimodalidade e letramento digital.
Fanfictions são escritas a partir de algum produto cultural (romances, séries, filmes, HQs, mangás, animes, e até a vida de ídolos), chamado de “cânone”. O fã é um indivíduo apaixonado que simultaneamente ama e fantasia como seria se as coisas fossem diferentes: uma fanfic é um gesto de reinterpretação autoral, homenagem, revisitação arquivística que modifica, expande e tenta preencher lacunas do material-fonte.
Quando mais fãs que gostam de determinado universo se aglutinam, formam-se comunidades em torno de um mesmo objeto de interesse: os fandoms, organizações que se configuram como um sistema de cultura complexo com suas próprias regras e normatizações na produção de textos e artes derivativas/transformativas.
Os membros das comunidades virtuais postam em plataformas de autopublicação diversas: Wattpad, Archive of Our Own, as brasileiras Spirit, Nyah!, Fanfic Obsession, entre outras. Nesses médiuns on-line, eles compartilham histórias, revisam, sugerem, comentam, interagem e constroem laços.
As fanfics surgem como resposta crítica ao consumo passivo de bens da indústria cultural, mas são retroalimentadas por essa indústria. Assim, o fandom possui uma faceta dupla: às vezes é espaço de contestação que dá protagonismo a vozes silenciadas no cânone; outras vezes, de manutenção massiva do status quo. Além disso, a cultura digital vem sendo apropriada pelo mercado editorial: após o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza (que era uma fanfic da saga Crepúsculo) e After (uma fanfic sobre o cantor Harry Styles), houve um boom de filmes e livros que adaptaram fanfics nacionais, a exemplo da websérie Stupid Wife (baseada no conto de Nathália Sodré, Lembre-se de Nós), uma fic sobre membros da banda Fifth Harmony.
Popularizadas a partir dos anos 60-70 pelos fãs de Star Trek, as fics se tornaram gêneros que podem ser trabalhados na educação básica por meio de oficinas e sequências didáticas, já que a maioria dos escritores são jovens. É possível explorar temas como multimodalidade, letramento digital, inter/hipertexto, elementos da narrativa, entre outros.
COMO CITAR ESTE VERBETE:
UTZIG, Ingrid Lara de Araújo. Fanfiction. In: CATRÓPA, Andréa; PEREIRA, Vinícius Carvalho; ROCHA, Rejane (Org.). Glossário LITDIGBR – Literatura Digital Brasileira. 2025. Disponível em: https://glossariolitdigbr.com.br/post-ed04-escrita/Acesso em: dia/mês/ano.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS FUNDAMENTAIS
JAMISON, Anne. FIC: por que a fanfiction está dominando o mundo. Trad. Marcelo Barbão. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2017.
O livro de Jamison é quase um manual básico para quem quer entender um pouco sobre a história/origem da fanfiction, bem como técnicas de escrita e termos próprios utilizados dentro desse universo.
JENKINS, Henry. Invasores do Texto: fãs e cultura participativa. Trad. Érico Asis. Nova Iguaçu, RJ: Marsupial, 2015.
Uma das obras mais conhecidas de Jenkins. Ao discutir sobre cultura participativa e conectividade na era digital, o autor se apropria da expressão de Michel de Certeau para criar os conceitos de “invasão textual” e “leitura nômade”.
UTZIG, Ingrid Lara de Araújo. Fanfiction e mercado editorial: relações entre fandom e polissistema literário. Araraquara: Cultura Acadêmica, 2023.
No livro, disponível para download gratuito, a autora discute as complexas relações entre o sistema literário e o sistema fandom, observando de que maneira as interferências entre ambos têm reconfigurado o que se entende por literatura no tempo presente.
VARGAS, Maria Lucia Bandeira. O fenômeno fanfiction: novas leituras e escrituras em meio eletrônico. Passo Fundo: Editora Universidade de Passo Fundo (UPF), 2005.
Nesta obra, precursora dos Estudos de Fandom no Brasil, a autora aborda a fanfiction como prática de letramento digital para o desenvolvimento do papel do “fã-navegador-autor”.
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